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domingo, 20 de maio de 2012

Limites: Tecnologia para o bem e para o mal do esporte


Limites: Tecnologia para o bem e para o mal do esporte
O Jornal Nacional apresenta, nesta semana, uma série de reportagens especiais sobre a busca dos recordes e a superação dos limites no esporte. Hoje, Renato Ribeiro mostra como os avanços da ciência e da tecnologia podem mudar resultados. Honestamente ou não.
Pista de carvão, roupas de algodão pesadas. Com o passar dos anos o atletismo mudou o cenário, mudou o figurino. A pista, as sapatilhas evoluíram para impulsionar o atleta para frente.
Na natação, ironia dos novos tempos: hoje, nadar vestido pode ser mais rápido do que só de sunga.
A ciência, a tecnologia e a preparação física mudaram os limites do esporte. Nem sempre de maneira lícita.
Justin Gatlin, campeão olímpico, campeão mundial, ex-recordista mundial: dopado. O roteiro que já se repetiu inúmeras vezes.
Nove segundos e 77 centésimos. O canadense Ben Johnson assombrou o mundo nos Jogos de Seul em 88.
“O estádio inteiro veio abaixo, com um som tipo ‘ohhhh!’. Todo mundo ficou estarrecido com o resultado”, lembra o ex-atleta Róbson Caetano.
Róbson Caetano chegou em quinto na prova que ficou famosa como o maior escândalo de doping da história. Esteróide anabolizante, fim da carreira de Ben Johnson.
Quase 20 anos depois, o doping, como tudo no esporte, evoluiu. E no início do século XXI, o Comitê Olímpico Internacional tem um novo desafio: o combate ao doping genético.
Na busca pela cura de doenças herdadas geneticamente, descobriu-se que há 170 gênes relacionados à performance física humana. Isso abriu espaço para o mau uso da ciência.
Por exemplo, o velocista que precisa de mais músculos nas pernas e coxas, ele poderia aplicar o gene que estimula a produção do hormônio do crescimento diretamente no local necessário e conseguiria o dobro de massa muscular.
Testes com animais já foram feitos, mas hoje algum atleta já poderia estar se dopando geneticamente?
“Pode ter gente que, de uma forma irresponsável, já esteja utilizando ele em laboratório”, acredita o geneticista Rodrigo Gonçalves Dias.
Os efeitos colaterais são perigosíssimos. Os corpos não estão preparados para receber em dobro hormônios, enzimas, proteínas. Tendões, ossos e até mesmo o coração podem sofrer conseqüências.
Pelas previsões dos especialistas, em oito anos poderemos ter o primeiro caso oficial.
“Do ponto de vista da saúde e médico e isso será uma violência, porque você estará realmente mexendo no cerne do funcionamento da máquina humana, o que é um absurdo de ser feito para esse tipo de objetivo”, alerta Francisco Radler, coordenador do laboratório antidoping da UFRJ.
Mesmo assim, o doping genético pode atrair atletas porque é mais difícil de ser detectado.
“Para você detectar um doping desse tipo, você precisa fazer no atleta uma biópsia muscular. Você não consegue detectar esse tipo de doping através de um teste de urina ou sangue”, afirma Rodrigo Gonçalves Dias.
A Agência Mundial Antidoping já prevê na lista de proibições mutações genéticas e vem pesquisando métodos para detectar e coibir o novo inimigo do esporte. Uma das grandes disputas dos próximos anos será nos laboratórios.
Créditos: Tino Marcos  - repórter
Grifo nosso:
No futuro bem próximo teremos:

As Olimpíadas Transgênicas – esta será financiada pelos grandes laboratórios onde o atleta não passa de uma marca, e não mais um corpo.

Alterações Posturais


Alterações Posturais
Alterações no tronco implicam, em maior ou menor grau, também em alterações do sistema respiratório (mecânica respiratória).
Portanto é importante que tenhamos alguns conhecimentos básicos a seu respeito!
CAUSAS:
 Estímulos insuficientes no desenvolvimento;
 Alongamento muscular exagerado;
 Músculos encurtados por posições unilaterais;
 Musculatura tensa por estresse nervoso;
 Vícios posturais;
 Alimentação pobre em proteínas. . . . . .
 Obs.: Alterações isoladas resultam em alterações gerais (circulação, respiração, coordenação...)
QUADRO:
 Força muscular insuficiente; Mobilidade excessiva ou insuficiente;
 Baixo tônus muscular;
 Articulações fracas...
TIPOS:
Funcionais - indicam problemas músculo-ligamentos, sem agressão óssea.
Estruturais - indicam deformidades ósseas.
CIFOSE:
É o aumento da curva posterior convexa da coluna (acentuação da curvatura fisiológica existente)
CARACTERÍSTICAS:
projeção dos ombros para frente e para baixo;
projeção da cabeça à frente;
inclinação pélvica anterior ou posterior;
joelhos hiperestendidos ou semiflexionados.
Geralmente ocorre encurtamento dos músculos peitorais, hipotonia dos dorsais e abdominais;
Provoca descida das costelas. (insuficiente amplitude torácica e bloqueio inspiratório).
ESCOLIOSE:
Desvio lateral da coluna, vista no plano frontal;
Causas: tanto funcionais como estruturais;
Denominação: por convenção trata-se sempre pela convexidade da curva, e pela primeira curva do “S”.
LORDOSE:
É aumento da curva lordótica da região lombar
Características:
Projeção da bacia e do abdômen para frente;
Encurtamento dos músculos lombares;
Insuficiência nos músculos abdominais e glúteos (sendo causa de dores lombares).
Maior ocorrência: deslizamentos intervertebrais freqüentemente localizados entre a 4ª e a 5ª lombar e a 5ª lombar e 1ª sacra
HÉRNIA DE DISCO:
É causada por uma ruptura das fibras concêntricas do disco intervertebral. O disco suporta cargas corporais e une vértebra a vértebra. Com a ruptura, processa-se o deslocamento de seu núcleo até a extrusão do mesmo. Quando se instala a lesão do disco, desencadeia um processo inflamatório, ocasionando a dor.
CAUSAS:
Relacionam-se a traumatismos, e tem como agravante causa diversas, como deformidades da coluna, rigidez corporal nos sedentários, obesidade, hipotonia e flacidez muscular. Os fatores psicológicos também contribuem para a instalação desses quadros, tais como depressão, estresse, etc.
TRATAMENTO:
Conservador: repouso, bloqueio anestésico, uso de analgésicos e antiinflamatórios, calor, massoterapia e reeducação através de exercícios corporais.
Cirurgia: aconselhada nos casos mais graves, garantindo o restabelecimento da resistência e estabilidade da coluna vertebral. Sendo esta uma estrutura que suporta grandes cargas, apenas a retirada da hérnia não alcança esse objetivo principal, sendo necessária a fixação dos elementos operados.
PINÇAMENTO:
FISIOPATOLOGIA DA DEGENERAÇÃO VERTEBRAL:
Causa: a ruptura do disco intervertebral ocasiona uma instabilidade segmentar progressiva da coluna, gerando a hérnia de disco ou a perda do poder higroscópico (gerando um processo de desidratação progressiva). Este processo reduz a estrutura discal, ocasionando uma maior aproximação entre os corpos vertebrais adjacentes.
EFEITOS:
Estabelece-se uma desestruturação completa da unidade funcional vertebral (degeneração progressiva de todos os elementos que dela participam).
A reação de defesa a este fenômeno de desmoronamento da coluna vertebral é realizada através da formação de osteofito (vulgarmente chamados de bico de papagaio, com a finalidade de aumentar a base de sustentação vertebral - estabilidade do segmento lesado).

As dores, que manifestam periodicamente, são ocasionadas por processos inflamatórios cíclicos concernentes à evolução do dano vertebral.
Pode ocorrer o desenvolvimento de hiperlordose lombar, aumento da cifose dorsal e retificação da coluna cervical devido ao efeito compensatório. Isso acarreta a redução da altura corporal do indivíduo (raquiadaptação).
Cada crise álgica apresenta contratura da musculatura para-vertebral, cujo objetivo é imobilizar o segmento lesado. As contrações dividem-se em: contratura de ofensa (desenvolve-se a partir da lesão discal instalada e a sua repetição é danosa à unidade funcional ), e contratura de defesa (se realiza durante os movimentos vertebrais e visa à proteção da coluna).
Conseqüências: dores incapacitantes nas regiões vertebrais, dores irradiadas como as ciáticas e braquialgias, incapacidades motoras que vão desde as paresias até as paralisias e mecanismos de espasticidade muscular. Isto acontece com a obstrução parcial ou total do canal vertebral, (canal estreito espondilótico ou degenerativo).
PREVENÇÃO:
A prevenção está relacionada à saúde corporal global.
É necessário um sistema músculo-esquelético flexível e estável, flexibilidade: prática de alongamentos diários; estabilização músculo-esquelético: tonificação dos músculos do abdômen, dos glúteos (nádegas), da coxa anterior e dos eretores da espinha.
É necessária que a porção corporal central tenha boa tonificação e a posição periférica (cintura escapular e cintura pélvica) tenha boa flexibilidade. Soma-se a este programa atividades aeróbicas que gerem uma aceleração cardíaca acima de 100 batimentos por minuto dentro de um tempo mínimo, conforme as condições cardiovasculares de cada pessoa.
Estas indicações são complementadas com a estabilidade psicológica, passando pela prática do relax e pensamentos entusiásticos e positivos. Para tanto, uma coluna perfeita necessita de hábitos de vida diário equilibrado e saudável, conduzidos de uma forma disciplinar e persistente.
ORIENTAÇÃO DE ATIVIDADES:
Se houver alguma alteração postural, procurar orientação quanto a exercícios específicos para:
        ALONGAMENTO E MOBILIDADE DA:
                       - cintura escapular;
                       - região dorsal;
                       - região lombar;
FORTALECIMENTO DOS:
-glúteos
- abdominais (cuidado com “abdominais” lesivos para a região lombar);
- dorsais (fortalecer dorsais sem sobrecarregar lombares;
- membros inferiores; 

REFLEXÕES SOBRE O CORPO NO CENÁRIO DA BIOTECNOLOGIA

DA CULTURA DO CORPO
reflexões sobre o  corpo no cenário da  biotecnologia
As transformações corporais possibilitadas pela biotecnologia, pela realidade virtual, configurando um hipercorpo, um corpo híbrido, desterritorializado, reatualizam as discussões sobre o corpo  que tenho e o corpo que sou, sobre o que nos define como seres humanos,  sobre a nossa forma corporal e sobre os limites da nossa corporeidade.
Stelarc, artista contemporâneo que realiza performances utilizando Robótica, sistemas de realidade virtual, interfaces com próteses e computadores tem sido um dos interlocutores desse debate, ao anunciar que o nosso corpo biológico é obsoleto. Dentre suas performances, destacam-se as interfaces  com sua Terceira Mão, um exoesqueleto e   uma escultura do estômago. As performances são coreografias compostas pela interação do controle fisiológico com a modulação eletrônica e realizam-se  por meio de processos desse corpo amplificado que incluem ondas do cérebro (ECG), músculos (EMG), controle da pulsação e do fluxo  sangüíneo (Doppler) e de outros condutores e sensores que monitoram o movimento dos membros e indicam a postura do corpo.
Stelarc provoca a reflexão filosófica ao afirmar que o corpo é obsoleto e que as capacidades de ser um corpo são restringidas por  ter um corpo: Ë hora de se perguntar se um corpo bípede, que respira, com visão binocular e um cérebro de 1.400cm³ é uma forma biológica adequada. O corpo é uma estrutura nem muito eficiente, nem muito durável. Com freqüência ele funciona mal e se cansa rapidamente; sua performance é determinada por sua idade. É suscetível a doenças e está fadado a uma morte certa e iminente. Seus parâmetros de sobrevivência são muito limitados - o corpo pode sobreviver somente semanas sem comida, dias sem água e minutos sem oxigênio ( Stelarc, 1997, p. 54).
Para Stelarc (1997), nossas ações e idéias estão determinadas pela nossa fisiologia. Estamos no limite da filosofia, por isso precisamos reprojetar o corpo e redefinir o que é o humano. Essas idéias não se restringem ao universo dos happenings, mas estão presentes em outros discursos contemporâneos, por exemplo Marvin Minsky, Donna Haraway, entre outros.
Nossa sociedade inventou e continua a reinventar o corpo como objeto de inúmeras intervenções sociais, técnicas e tecnológicas, o que nos leva a interrogar: que possibilidades hoje nos são abertas  e que experiências nos são possíveis? O corpo que tenho corresponde ao corpo que sou? O que é ser um corpo? O que é ter um corpo? O que é hoje a nossa corporeidade?
Particularmente em relação ao corpo, o processo de virtualização possibilitado pelas biotecnologias concretiza-se na alteração das funções somáticas como: a percepção, os movimentos de deslocamento do corpo, as alterações na visibilidade do corpo,  seja por reconstituições da  pele, dos tecidos, seja pela criação de modelos digitais,  entre  outras possibilidades. O fenômeno de reconstrução da identidade do humano, a partir da virtualização, cria o hipercorpo, propício às mais diversas viagens e trocas entre os indivíduos. Cada corpo individual torna-se parte integrante de um imenso hipercorpo híbrido e mundializado ... Meu corpo pessoal é a atualização temporária de um enorme hipercorpo híbrido, social e biotecnológico ( Lévy, 1998, p.31; 33).
O corpo é visto por alguns entusiastas das novas tecnologias como anacrônico, inadequado, obsoleto. O corpo eletrônico por sua vez atinge a perfeição, pois é imune à doença, à deficiência física e até mesmo à morte. O corpo biônico deve substituir o velho corpo biológico. Para o filósofo Le Breton, essa visão do mundo que isola o corpo em sua materialidade biológica, hipostasia o espírito. O discurso sobre o fim do corpo é um discurso religioso e o dualismo não se inscreve mais na metafísica mas sim no concreto da existência, dada  a possibilidade de alterações na nossa corporeidade. Se o homem só existe por meio de formas corporais que o colocam no mundo, qualquer modificação de sua forma implica uma outra definição de sua humanidade ( Le Breton, 2003, p. 136). Certamente essa definição ou redefinição do que é humano apresenta questionamentos de várias ordens: éticos, epistemológicos, ontológicos, estéticos
Se por um lado,  essa revolução somatoplástica pode contribuir para a readaptação ou reconstrução de corpos mutilados, restaurando aspectos funcionais, por outro lado, o ressurgimento do corpo na atualidade, fundado nas próteses e no modelo cibernético, traz consigo o reaparecimento do dualismo, em novas bases, apontando uma defasagem do corpo em relação às possibilidades da bioengenharia, transformações do corpo e viagens plasmáticas no universo on line, frente ao nosso espaço tridimensional, entre outros aspectos. Um novo mentalismo ressurge com toda força na cultura contemporânea. Desse modo, busca-se substituir a emergência das funções corporais pela virtualidade, tornando o corpo um objeto cibernético.
Na contemporaneidade, alguns afirmam:  eu sou na medida das minhas conexões, como o que define hoje a nossa subjetividade, nosso corpo. Mas, desde sempre o corpo do homem foi investido das inovações tecnológicas, pois história humana e técnica pertencem a um mesmo movimento. Certamente, fizemos um longo percurso desde a Grécia e seus mitos encantadores até nossos sofisticados laboratórios de genética, informática e biomêcanica. Somos resistentes a incorporá-las a nossa imagem, recorrendo por vezes a naturalismos ingênuos. Ingênuos por não reconhecerem que o humano não emerge de uma evolução linear, mas de um mundo complexo: biológico, técnico, político, semiótico e incarna-o, corporifica-o. Do mesmo modo que criticamos os dualismos mais tradicionais, a saber: sujeito e objeto, natureza e cultura, interior e exterior, corpo e alma;  precisamos repensar a oposição entre homem e máquina,  humano e o não humano  (Tucherman, 1999).
Pelo menos desde a Renascença, o corpo do homem vem sendo progressivamente desvelado.  As modificações trazidas pela visibilidade pública do conhecimento do interior do corpo, permitidas pela Anatomia,  articula relações com a representação mecânica do corpo, sobretudo pelo olhar objetivo do funcionamento do corpo humano e de suas partes. O discurso do corpo-máquina, formulado por Descartes no século XVII, instituiu padrões de movimento marcados pela distinção dos processos corporais e mentais, eficiência e utilidade, que ainda hoje influenciam as práticas corporais. Ao duvidar sobre a existência da materialidade corpórea, Descartes instaura um campo de investigação sobre o corpo em diversas áreas, por exemplo  na medicina.
Em 1748, La Mettrie, radicalizava Descartes, afirmando que os homens eram meras máquinas, conjunto de engrenagens puramente materiais, sem nenhuma substância espiritual como pretendia Descartes ( Rouanet, 2003, p. 38).  Referindo-se à obra de La Mettrie, Rouanet diz que contra a ditadura do gene, podemos agir politicamente para que não haja nenhum homem-máquina, ou que ele seja tão amável quanto o homem de lata do Mágico de Oz, que acaba ganhando um coração ao fim de sua jornada. O homem como autor de seu destino, suficientemente corajoso para rejeitar qualquer apelo a um pai transcendental, suficientemente humano para não transformar a pedagogia em arte de amestrar e suficientemente democrático para não substituir a política pela biologia. Em parte, La Mettrie concordaria com isso, apesar de sua ênfase biológica; detestava a idéia de uma reposição genética que mudasse as condições sob as quais se processam à alimentação  e à sexualidade humanas; ele [ dada a sua condição de bon vivant e consumado  epicurista] preferiria  continuar tomando seu vinho e acariciando o seio de Philis (idem, p. 63).
O determinismo biológico do DNA encontra resistências advindas do próprio campo científico. Para cientistas como François Jacob, Henri Atlan, Maturana e Varela,  a existência humana não se reduz aos fundamentos químicos. Nessa perspectiva, a visão da Biologia Molecular torna-se insuficiente, pois, ao considerar que os genes constituem a informação que especifica o ser vivo, reduz o todo à propriedade dos componentes. É certo que modificações nos genes trazem conseqüências dramáticas para a estrutura de uma célula. O erro está em confundir participação essencial com responsabilidade única ( Maturana e Varela, 1995, p.107).   
No campo da Genética,  seres híbridos e clonagem são possibilidades de reprogramação da vida.  O filme Meninos do Brasil mostra experiências de clonagem que teriam sido feitas por Yusef Menguelli, criando 94 clones de Hitler.  O que dá um caráter apavorante a um filme como Meninos do Brasil não é somente o fato de que os clones foram produzidos a partir das células de Adolf Hitler, e sim o fato em si da clonagem. Continuaremos angustiados mesmo que o protótipo do qual foram gerados fosse a madre Teresa ( Rouanet, 2003, p. 59).
O olhar da Ciência sobre o corpo não se desenvolveu sem resistências, seja no campo filosófico ou científico. Para Merleau-Ponty ( 1992) a ciência manipula as coisas e renuncia a habitá-las. Esse pensamento objetivo ignora o corpo sujeito e trata-o como objeto de manipulações. O projeto de dar conta da existência a partir de um modelo mecânico justifica-se pelo fato de que temos um corpo submetido às leis da mecânica como qualquer outro: se for empurrado, vai para frente, se for puxado, recua,  se for levantado e largado cai no chão. Mas não é só isso. Ë o nosso corpo, o corpo-próprio, cuja espacialidade e temporalidade possuem sentido e significado nos diz Merleau-Ponty.
A respeito do desenvolvimento da ciência nos diz François Jacob, médico, biólogo, prêmio Nobel em 1956, na área de pesquisa genética em bactérias: somos uma temível mistura de ácidos nucléicos e lembranças,  de desejos e de proteínas. O século que termina ocupou-se muito de ácidos nucléicos e de proteínas. O seguinte vai concentrar-se sobre suas lembranças e os desejos. Saberá ele resolver essas questões? ( Jacob, 1998,  p. 156).
REFERÊNCIAS
JACOB, François. O rato, o homem e a mosca. São Paulo: Companhia das Letras, 1998. 
LE BRETON, André. Adeus ao corpo. IN NOVAES, A . ( Org.). O homem-máquina: a ciência manipula o corpo. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.
LÉVY, Pierre. O que é o virtual? Rio de Janeiro: Editora 34, 1998.
MATURANA, H. & VARELA, F. A árvore do conhecimento. Campinas: Psy, 1995.
MERLEAU-PONTY, M. O visível e o invisível. São Paulo: Perspectiva, 1992.
ROUANET, Sérgio Paulo. O homem-máquina hoje. IN NOVAES, A . ( Org.). O homem-máquina: a ciência manipula o corpo. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.
STELARC. Das estratégias psicológicas às ciberestratégias: a protética, a robótica e a existência remota. IN DOMINGUES, D. ( Org. ). A arte no século XXI: a humanização das tecnologias. São Paulo: Unesp, 1997.
TUCHERMAN, Ieda. Breve história do corpo e de seus monstros. Lisboa: Veja, 1999.



























Adeus ao corpo

Adeus ao corpo clip_image001
David Le Breton, antropólogo francês, é um especialista do corpo: corpo singular, múltiplo, ferido. Corpo como obra de arte em perigo! Autor, entre outros, de Antropologia da Dor, Antropologia do Corpo e Modernidade, A Sociologia do Corpo, Antropologia das Emoções e Adeus ao Corpo, Le Breton é referência para aqueles que trabalham com o corpo.
Segundo Le Breton, o corpo tornou-se um acessório, uma prótese marcado por uma subjetividade lixo, uma bula, um kit: ''É a formidável convergência de práticas relativamente recentes, ou de sucesso recente, que faz com que o corpo seja hoje muitas vezes vivido como um acessório da presença (...) O corpo é um objeto imperfeito, um rascunho a ser corrigido. Vejam o sucesso da cirurgia estética: trata-se de fato de mudar seu corpo para mudar sua vida''.
Nunca o corpo-descartável foi tão exaltado como na contemporaneidade. Órgãos sem corpos são fixações parciais que massacram o próprio corpo. Boca, seios, olhos, pernas, genitália esfacelada, moldada: não se trata mais de um corpo, mas de um acumulado de órgãos colados em algo que se denomina corpo. Corpo-peneira, corpo trespassado pelas flechas (bisturi), corpo-penetrado pelas seringas, o sujeito-corpo-descartável paga o preço de sua beleza.
Para além da análise do discurso científico, biológico ou informático sobre o corpo, o autor aponta o perigo de um discurso de aperfeiçoamento transformando-o em um cibercorpo - ligação na carne do homem de procedimentos informativos sob forma de chip. Trata-se de um saber científico que se apresenta sob o signo de uma promessa messiânica - os velhos ficarão novos, os feios belos, todos alcançarão a eterna juventude -, em que alguns cientistas são os ''novos padres'', criadores de uma ''cibersexualidade''. Essa poderia engendrar na relação com o outro a abolição da própria alteridade: o outro é afastado em proveito dos signos de sua presença.
O corpo à distância pode ser um disquete, um programa, um site, um Eros eletrônico. O sexo virtual, sexo sem corpo, sexo fantasmático, torna-se o ''bom'' sexo, o sem-sexo, o sexo rei! ''Para alguns expoentes da cibercultura americana, a sexualidade é algo superado. Eles a consideram como sujeira'', miasma, putrefação. À estética do belo a qualquer preço, junta-se o fundamentalismo da era virtual.
No momento em que a biologia, a informática, a tecnociência impõem a cibersexualidade como modelo - um sexo sem corpo, um sexo contra o corpo -, faz-se necessário retornar à filosofia. Revisitar alguns filósofos do corpo, do desejo e do prazer, trilogia que anuncia um outro-epidérmico, para além da consciência e do biopoder domadores de produções inconscientes de um saber sobre o corpo que supera a tirania de uma estética do corpo contra o próprio corpo.
O que é arrebatador, diz Nietzsche, é o corpo: ''(...) não nos fatigamos de nos maravilhar com a idéia de que o corpo humano tornou-se possível''. Deleuze: ''Espinosa propõe aos filósofos um novo modelo: o corpo (...): não sabemos o que pode o corpo''.
Eis a questão: reencontrar o ''sentido da carne'', ''o texto primitivo'' do homem ''natural'', mediante uma solicitação sempre mais exigente do inconsciente em detrimento da Razão, a louca da casa: ''A Razão não pode ensinar nada que seja contra a Natureza'', escreve Espinosa.
Adeus ao Corpo, publicado pela editora Papirus, aponta o paradoxo de uma modernidade cujo discurso aparente faz a apologia do corpo para melhor esvaziá-lo, transformando-o em mercadoria e impondo um simulacro do corpo.
Daniel Lins é professor na Universidade Federal do Ceará (UFC)
O Povo (09/08/2003)
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A Tirania do Corpo

A Tirania do Corpo

Incluído em 01/06/2005
A psiquiatria sempre se preocupou com as influências culturais sobre a saúde mental. Até que ponto os hábitos, costumes e valores sociais influem no desenvolvimento das doenças mentais? Em épocas passadas, as grandes comoções histéricas dominavam os sintomas psíquicos e as emoções decorrentes do conflito humano, predominantemente no sexo feminino. Eram produzidas crises onde se misturavam teatralidade humana, bruxaria e influências demoníacas.
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Em épocas mais recentes a angústia era traduzida em grandes conversões pseudoneurológicas, como as paralisias, cegueiras e afonias histéricas. Quantas paralisias e afonias desse tipo (pré Ressonância Magnética) alimentaram os cultos milagreiros. A fé era o santo remédio e misturar manga com leite matava de congestão, assim como, olhar no espelho ou tomar banho depois de comer podia entortar bocas.
Sem dúvida, alguma coisa boa aconteceu recentemente com a maior popularização dos conhecimentos psiquiátricos. Um dos exemplos é o que se sabe, leigamente, em relação à Síndrome do Pânico, depressão, Transtorno Obsessivo-Compulsivo e outros. Houve uma espécie de desestigmatização da Ansiedade Aguda ou da Angústia Patológica. Sim, porque as manifestações da angústia de antes costumavam ser consideradas exemplos de “franqueza mental”, falta de pensamentos positivos, falta de ter o que fazer e coisas do gênero.
Mas hoje, com a universalização dos conceitos psiquiátricos, sabe-se que o estresse e a ansiedade podem acometer qualquer pessoa “de bem”, sem que seja considerada doida ou mentalmente fraca. A Síndrome do Pânico, os Transtornos Fóbicos e outros, de fato, representam aspectos do psiquismo humano que acabam sempre encontrando uma via de manifestação culturalmente complacente e aceitável. E atualmente, apesar desses quadros fóbico-ansiosos continuarem sendo os principais responsáveis pela movimentação dos consultórios de psiquiatria, começa a aparecer em crescente velocidade os problemas decorrentes da obsessão pelo corpo perfeito.
Algumas mocinhas já consideram impossível ser felizes e, ao mesmo tempo, mostrar uma dobrinha na barriga quando sentam. Alguns mocinhos sacrificam boa parte da capacidade de aculturação que a natureza nos deu, em intermináveis e obsessivas horas “puxando ferro” nas academias de musculação. Isso sem contar com a comodidade que algumas pessoas gozam por poderem atribuir a um pequeno excesso de gordura na cintura, a um nariz ligeiramente mais profuso ou a um seio menos farto, toda a responsabilidade pelos fracassos em conquistar o sexo oposto. Parece estar havendo uma locação anatômica da felicidade, ora no seio, ora no nariz, ora na balança.
O problema não seria grave se a preocupação com o corpo não fosse uma obsessão capaz de escravizar, capaz de entorpecer pessoas em busca de defeitos e dobrinhas aqui e ali, imaginando que se tirasse um pouquinho daqui, colocasse um tantinho a mais ali tudo ficaria melhor, mais perfeito, mais sarado. Pessoas têm como sonho de consumo a cirurgia plástica, a lipoaspiração ou, como se diz, a lipo-escultura (palavrinha mágica que mistura a perda da gordura com uma coisa artística). Algumas pessoas não se envergonham em dizer (não se envergonham por causa do apoio cultural) que se “pudessem fariam uma plástica geral, trocariam tudo, modificariam tudo”. Quer dizer, são pessoas infelizes com o próprio corpo.
Alguns podem contra argumentar que a pessoa não tem toda culpa por se submeter a esse escravagismo estético. A censura e a vigilância culturais seriam os grandes carrascos da prisão em estreitas calças jeans a que todos somos submetidos. Mas aí poderíamos parodiar Sartre: “– Se não podemos ser responsáveis por tudo aquilo que a cultura e a sociedade nos fez, seremos sim muito responsáveis pelo que faremos com tudo aquilo que a cultura e a sociedade nos fez”.
Alguns dos reflexos psiquiátricos da submissão da felicidade humana ao corpo perfeito, malhado, esculpido, e com músculos bem definidos tem sido a anorexia e a bulimia, mais comum do lado feminino, e a vigorexia, mais comum em homens. Mas outros reflexos psíquicos não tão patológicos também fazem parte da obsessão pelo corpo, como a privação de contatos sociais, complexos de inferioridade, submissão aos “tratamentos milagrosos” (e caros), retraimento no contacto com o sexo oposto, consumo de medicamentos com severos efeitos colaterais, etc.
Ser jovem, aliás, ser eternamente jovem, é a principal aspiração existencial de algumas pessoas, atualmente acrescida do ideal de beleza de ser magro(a), malhado(a) e esbelto(a). No Brasil, o conceito de beleza está associado a ser jovem, como se fosse impossível encontrar o belo fora da juventude. Talvez por isso nosso país esteja entre os primeiros no ranking da Cirurgia Plástica Rejuvenescedora, além de ser também um voraz consumidor de medicamentos para emagrecer. É triste, mas às vezes as pessoas acham que o mais importante é o que aparentam, e não o que são de fato. E é comum dizer-se “– Nossa, você já tem 60 anos? Mas não parece...”. Não parece como? Baseado em que? Ora essa atitude invalida todas as experiências vividas para se chegar aos sessenta, que não se consegue aos trinta ou quarenta.
Bela, jovem e magra, custe o que custar”. Ser bonita, fazer um book e tentar ser famosa através dos atributos físicos... Este é o conceito ideal que algumas meninas, adolescentes, jovens e mulheres perseguem incessantemente. Modelos, artistas de cinema e de televisão são os protótipos copiados por elas, colocando em segundo plano outros atributos que não os do corpo perfeito.
De fato, romper esses estereótipos culturais tem sido muito difícil. As pessoas são catalogadas culturalmente e classificadas em categorias sociais; jovens e belas, modernas, avançadas, de atitude, arrojadas, descoladas, enfim, nesse mundo pretensamente liberal e democrático, nessa sociedade que se diz respeitar a individualidade e autenticidade, quem não se enquadrar obrigatoriamente no modelinho da modernidade desejada estará, automaticamente, excluído do mundo das pessoas “de bem”. E um desses modelinhos implica na observância obsessiva dos limites do peso, tiranamente estabelecido por sabe-se-la-quem.
Mas há uma luz (tênue) no fim do túnel e aqueles que conseguem seguir o próprio caminho, emancipados dos estereótipos ou modelinhos culturais, parecem viver muito melhor. Foi o que mostrou uma pesquisa feita em 1995 na Universidade de Edinburgh, na Inglaterra, transformada no livro e comentada na revista Época. O autor, o psicólogo David Weeks, pesquisou, por uma década, pessoas que viviam fora dos padrões - tanto de comportamento quanto estéticos. Foram 789 americanos, 130 britânicos, 25 alemães e 25 neozelandeses. Ao fim, concluiu que os excêntricos eram mais seguros, menos estressados, mais felizes e, por isso, tendiam a viver mais.
Em nossa cultura o conceito de beleza está associado à juventude, como se não existisse o belo fora da juventude. A conseqüência dessa cultura na saúde emocional se vê na ocorrência de alguns transtornos emocionais como, por exemplo, os Transtornos Alimentares (anorexia e a bulimia), Transtorno Dismórfico Corporal, Vigorexia. Isso sem contar a propensão que as pessoas vitimadas pelas restrições sociais impostas pela tirania do corpo têm para desenvolver depressão, algumas vezes levando ao suicídio. Além de tudo isso, a cultura do corpo perfeito acaba promovendo acidentes médicos graves decorrentes do uso abusivo de cirurgias e intervenções estéticas.
A obsessão e/ou dependência ao exercício, chamada de Vigorexia ou Overtraining, em inglês, é um transtorno no qual as pessoas realizam práticas esportivas de forma continua, com uma valorização praticamente religiosa (fanatismo) ou a tal ponto de exigir constantemente seu corpo sem importar com eventuais conseqüências ou contra-indicações, mesmo medicamente orientadas. Outro nome para esse quadro e, mais presente nas classificações internacionais é o Transtorno Dismórfico Corporal
É bastante curioso observar como as patologias mentais ou, no mínimo, os sintomas mentais evoluem e se transformam ao longo do tempo e entre as diversas culturas, mostrando-se sensíveis às mudanças sócio-culturais. A Vigorexia, por exemplo, está nascendo no seio de uma sociedade consumista, competitiva, frívola até certo ponto e onde o culto à imagem acaba adquirindo, praticamente, a categoria de religião.
A Anorexia Nervosa, por sua vez, é um transtorno emocional que consiste em uma perda de peso derivada e um intenso temor da obesidade. Esses sentimentos têm como conseqüência uma serie de condutas anômalas. A Anorexia Nervosa acomete preferentemente a mulheres jovens entre 14 e 18 anos. A Bulimia Nervosa é um transtorno mental que se caracteriza por episódios repetidos de ingestão excessiva de alimentos num curto espaço de tempo (as crises bulímicas), seguido por uma preocupação exagerada sobre o controle do peso corporal, preocupação esta que leva a pessoa a adotar condutas inadequadas e perigosas para sua saúde, como por exemplo o vômito freqüente, uso abusivo de laxantes e diuréticos. A Bulimia Nervosa também acomete preferentemente a mulheres jovens ainda que algo maiores que em Anorexia.
Alem dos transtornos estimulados pela conjuntura cultural, há ainda o problema imposto às pessoas com sobrepeso (veja Obesidade). Existem dois agravantes sociais cruciais influindo na vida das pessoas acima do peso ideal; uma influência francamente recriminadora e de exclusão social dos obesos e outra, absolutamente estimulante para a manutenção e desenvolvimento da própria obesidade.
É grosseira e desumana discriminação estética imposta pelos parâmetros ditatoriais das medidas, juntamente com o julgamento do obeso como uma pessoa que não tem força de vontade e que ele é assim por ser preguiçoso. Cogitar deixa-lo do jeito que estiver, principalmente se estiver se sentindo bem com isso, nem pensar. O policiamento cultural é intenso. O enfoque discriminatório pode gerar preconceito em relação à pessoa obesa, acaba proporcionando dificuldades para relacionamentos sociais e afetivos, problemas para encontrar emprego e até quadros psiquiátricos gravemente depressivos e conseqüentes a essa marginalização.
Clinicamente a obesidade pode ser considerada hoje uma doença crônica, capaz de provocar ou acelerar o desenvolvimento de outras doenças e que concorre para uma morte mais precocemente. Porém, existem inúmeros estados ou situações entre a obesidade e o simples sobrepeso e as regras de um estado não deveriam ser as mesmas do outro, em termos de felicidade. A obesidade, de fato, deve ser prevenida e corrigida, tendo em vista os sabidos efeitos deletérios sobre a saúde e a qualidade de vida. O sobrepeso, entretanto, deve ser melhor avaliado à luz das repercussões culturais, das restrições sociais e da baixa autoestima que esses fatores estimulam.
Paradoxalmente, em franca contra-posição à tendência repulsiva da sociedade contra a obesidade, a ingestão excessiva de alimentos, desde criança, é bastante estimulada por nossa cultura altamente consumista. A armadilha está no forte apelo cultural através da propaganda, do marketing e da mídia publicitária para a ingestão excessiva de alimentos supérfluos, como balas, bolachas, salgadinhos, cerveja, sorvetes, etc. O próprio relacionamento social concorre para a ingestão de alimentos, como por exemplo, o costume de agraciarmos nossas visitas, amigos, clientes ou grupos culturais com jantares, lanches, happy hour, cafezinho, bolo, etc.



















quinta-feira, 17 de maio de 2012

Corpo: objeto de estudo

 
Corpo: objeto de estudo
Ana Maria Marques
Universidade do Vale do Itajaí
Corpos de passagem: ensaios sobre a subjetividade contemporânea.
SANT'ANNA, Denise Bernuzzi de.
São Paulo: Estação Liberdade, 2001.
127 p.
Na década de 1990, Denise B. de Sant'Anna publicou dois livros problematizando o corpo, além de diversos artigos. A obra Corpos de passagem, ainda um desdobramento dessa reflexão, reúne dez ensaios que foram escritos na mesma década e publicados ou apresentados, integralmente ou parcialmente, em diferentes meios (jornal, revista, mesa-redonda e, certamente, rascunhos do debate acadêmico). Historiadora da PUC-SP, doutorada pela Universidade de Paris VII, Denise B. de Sant'Anna vem ampliar os questionamentos que a sociedade e, em especial, a academia têm feito sobre o corpo, que passa a ser objeto de estudo a partir da década de 1970.
A exploração comercial do corpo, questão levantada por Denise Sant'Anna, trouxe, paradoxalmente, a 'desertificação da vida'. Quanto mais se explora o corpo, mais ele se torna infinito, rompem-se as fronteiras territorias. O corpo não é mais uma unidade, mas um elo entre os corpos. As pesquisas genéticas estão criando transgênicos e seres pós-gênero, no entanto as desigualdades sociais permanecem. Essas são discussões especialmente presentes no sétimo e no oitavo ensaio.
O corpo como equivalente de riqueza e explorado pelo mercado é a tônica das reflexões da autora. A estética aerodinâmica suavizando as linhas, a tecnologia virtualizando a pessoa viva, cria um abismo "entre os nossos", diz ela. O deslocamento é valorizado: viagens de férias, spas ou resorts, esportes radicais... Prometeu reaparece como aquele que vence suas próprias limitações ou conquista seu próprio empreendimento. Ou seja, o indivíduo domina a si mesmo ou os espaços, transformando a natureza, recriando cidades onde passeia sem medo - é a 'indústria da alegria' , - temas tratados no terceiro e no quarto ensaio.
A velocidade também passa a ser condição de sucesso, poder e riqueza, mostra a autora no primeiro ensaio. Aquele que se quer desvencilhar do peso de tudo "teme carregar muito corpo, muita memória, muita identidade. E se vê ameaçado constantemente pela vertigem da compulsão e pela depressão aniquiladora" (p.25), conclui Denise. E faz pensar que os apelos do mercado colocam a vida na moda. Então, envelhecer ou morrer também se comercializa, pois a imortalidade é aqui, nesta vida.
Enquanto a exposição do corpo ganha publicidade, o interior do corpo provoca náuseas. Até bem pouco tempo, doentes eram tratados em casa, bem como galinhas e porcos que além de serem tratados eram mortos em casa. Os penicos ficavam em baixo da cama. A menstruação passava pelas mãos que lavavam as toalhinhas. Sangue, fezes e urina faziam parte da rotina. "Na medida em que o corpo ganha direito de exposição, ele conquista o dever de ser civilizado e fotogênico" (p. 69), coloca a autora, no quinto ensaio. No segundo, mostra como o hospital deixa o corpo 'paciente' aos cuidados e especialidades de estranhos. Estar doente não é mais 'natural'. A dor, que no século XIX era sinônimo de coragem e persistência, deve ser banida. A vida do doente é como se não fosse vida, passa a ser um momento intervalar.
O nono ensaio polemiza a idéia que deu origem ao título do livro: o corpo-passagem. A idéia de possessão como um lugar de passagem. Aquela máxima feminista, da década de 1960, "nosso corpo nos pertence",1 que pretendia ser um contraponto da dominação do homem sobre a mulher, não só se esvazia como nos remete a pensarmos que nossos corpos não pertencem a ninguém, nem a nós mesmos. Na metáfora utilizada pela própria autora, o corpo é parodoxal à medida que não é algo pronto mas também não é um rascunho. Somos e temos um corpo sempre de passagem. Não no sentido cristão de passagem para o céu, embora para alguns também possa ser, mas no sentido de que um mesmo corpo possa assumir formas (plasticidades e comportamentos) em diferentes momentos ou em um mesmo momento. O corpo pode estar em um determinado local e em outro ao mesmo tempo, pode estar parado e em movimento... As polaridades já foram superadas pelas reflexões contemporâneas da subjetividade. E Denise Sant'Anna coloca essas questões nesse livro, embora avise dos riscos de cair na areia movediça da valorização do corpo que carrega a 'universalidade' do indivíduo, onde habita sua pátria, seus sucessos e fracassos. Os conceitos universais de Deus, Nação podem, e têm sido transferidos para a noção de indivíduo. O mercado e a publicidade mostram que a felicidade pode ser comprada, que as coisas e os bichos podem ser humanizados (nos falam, nos incitam, os animais conversam, fazem companhia...). Valores como liberdade, democracia e cidadania são definidos como conseqüências do consumo. As sutilezas provocam outras palavras, histórias, personagens e corpos, conclui a autora.
Denise não quer ser definida como uma historiadora do corpo, embora os corpos e suas relações tenham historicidade. Ela não se preocupou com as relações de gênero, talvez porque não quisesse problematizar a sexualidade, que vem sendo objeto de amplos debates acadêmicos e, seguramente, já extrapolam as questões do sexo. Afinal, se a sexualidade passou a ser objeto de estudo é porque a sociedade contemporânea está preocupada com as relações de gênero e está desconstruindo os conceitos universais de ser homem e de ser mulher. Então, podemos ler nas entrelinhas a questão do gênero que está diretamente relacionada ao corpo.
Corpos de passagem, um conjunto de ensaios, não tem um caráter propriamente acadêmico. Os textos que compõem a obra não aprofundam as discussões teóricas das categorias envolvidas: corpo, subjetividade, indivíduo, por exemplo. Muitas áreas do conhecimento foram exploradas, e o elenco de autores/as franceses apresentados é significativo se comparado a poucos autores/as americanos (James Clifford, citado pelo seu trabalho etnográfico sobre comunidades sedentárias, e Donna Haraway, citada na sua abordagem sobre tecnociência e seres pós-gênero) e outros poucos/as pesquisadores/as brasileiros/as, como Heloisa de Farias Cruz, que aparece quando o assunto é a convivência entre pessoas e animais nas cidades (mostrando a utilização dos animais de carga na São Paulo das primeiras décadas do século passado); Beatriz Sarlo, quando se fala do modo de vida - zapping - dos dias atuais; e Celia M. T. Serrano e Heloisa T. Bruhns quando o assunto é turismo, cultura e ambiente. Entre os/as autores/as em lígua francesa, aparecem: Monique Sicard, sendo referenciada quando o assunto é imagens; Peter Handke, Alain Ehrenberg e Jean-Luis Chrétier, na discussão sobre o charme da lentidão quando a contrapartida é a fatiga; Henri Béraud e Claude Fiscler, inspirando as fala sobre obesidade; Vladimir Jankélevitch, Jean-Pierre Peter, Marie-Christine Pouchelle e Timothy Lenoir discutindo sobre morte, dor, hospitais e cirurgias; Bernand Edelman, sobre a publicidade da privacidade; Marc Guillaume e Pascal Bruckner, com seus respectivos trabalhos sobre a fábrica do riso e a euforia da felicidade; Dora Valayer, com o tema turismo; Michel Serres, com a idéia de pantopia; Andre Pichot e Vandana Shiva, quando a discussão gira em torno de ciência, genética e ética; Claude Olievenstein, que aborda o envelhecimento; e Francis Ponge, que apóia a autora quando trata da visão do homem no animal.
No campo da História, o tema do corpo, envolto pela subjetividade, é preocupação recente. As evidências com o corpo, bem como a sexualidade, tornaram-se debate freqüente na sociedade e fizeram emergir as problemáticas sobre o mesmo. Os historiadores estão se perguntando sobre o corpo porque a sociedade está colocando esse tema em evidência. Não se têm muitas respostas, ou talvez não tenhamos que tê-las. Todavia, a contribuição de Denise Sant'Anna, especialmente no campo da História, é muito importante. Até mesmo para percebermos o quanto os historiadores precisam discutir tanto com a Antropologia, a Psicologia e a Filosofia quanto com a Medicina, o Direito e outras áreas que cientificizaram o corpo e as relações humanas. Nesse momento, o trabalho de arqueólogo sugerido por Foucault2 é pertinente, não para trazer os 'monumentos' mudos, mas transformá-los em documentos tomados de sentidos pelo historiador.
O corpo foi dado a ler 'naturalizado' nas manifestações sobre doença, morte e velhice no século XIX e início do século passado, ou na busca de saúde e prazer infinitos contemporâneos. Esses contrapontos da 'natureza' dos corpos, como mostra a autora, são historicizados, mesmo que as temporalidades sejam efêmeras por não ter uma datação precisa ou presa no calendário de determinada cultura. Desconstruir as formas discursivas, como faz Denise Sant'Anna, é evitar o perigo de transformar o corpo em lugar dos universais.
1 Lucila Scavone traz essa discussão do primeiro momento do movimento feminista, baseado na noção de diferença e criando uma idéia de liberdade e autonomia das mulheres, associada a uma concepçao de conhecimento e reapropriação do próprio corpo. SCAVONE, Lucila. "Anticonceptión, aborto y tecnologías conceptivas: entre la salud, la ética y los derechos". In: SCAVONE, Lucila (Org.). Género y salud reproductiva en América Larina. Cartago: Libro Universitario Regional, 1999. p. 25-31. 
2 FOUCAULT, Michel. A arquelogia do saber. 3. ed. Rio de Janeiro: Forense-Universitária, 1987.

sábado, 28 de abril de 2012

Corpo: objeto de estudo

Corpo: objeto de estudo


Ana Maria Marques
Universidade do Vale do Itajaí


Corpos de passagem: ensaios sobre a subjetividade contemporânea. 
SANT'ANNA, Denise Bernuzzi de. 
São Paulo: Estação Liberdade, 2001. 
127 p.
Na década de 1990, Denise B. de Sant'Anna publicou dois livros problematizando o corpo, além de diversos artigos. A obra Corpos de passagem, ainda um desdobramento dessa reflexão, reúne dez ensaios que foram escritos na mesma década e publicados ou apresentados, integralmente ou parcialmente, em diferentes meios (jornal, revista, mesa-redonda e, certamente, rascunhos do debate acadêmico). Historiadora da PUC-SP, doutorada pela Universidade de Paris VII, Denise B. de Sant'Anna vem ampliar os questionamentos que a sociedade e, em especial, a academia têm feito sobre o corpo, que passa a ser objeto de estudo a partir da década de 1970.
A exploração comercial do corpo, questão levantada por Denise Sant'Anna, trouxe, paradoxalmente, a 'desertificação da vida'. Quanto mais se explora o corpo, mais ele se torna infinito, rompem-se as fronteiras territorias. O corpo não é mais uma unidade, mas um elo entre os corpos. As pesquisas genéticas estão criando transgênicos e seres pós-gênero, no entanto as desigualdades sociais permanecem. Essas são discussões especialmente presentes no sétimo e no oitavo ensaio.
O corpo como equivalente de riqueza e explorado pelo mercado é a tônica das reflexões da autora. A estética aerodinâmica suavizando as linhas, a tecnologia virtualizando a pessoa viva, cria um abismo "entre os nossos", diz ela. O deslocamento é valorizado: viagens de férias, spas ou resorts, esportes radicais... Prometeu reaparece como aquele que vence suas próprias limitações ou conquista seu próprio empreendimento. Ou seja, o indivíduo domina a si mesmo ou os espaços, transformando a natureza, recriando cidades onde passeia sem medo - é a 'indústria da alegria' , - temas tratados no terceiro e no quarto ensaio.
A velocidade também passa a ser condição de sucesso, poder e riqueza, mostra a autora no primeiro ensaio. Aquele que se quer desvencilhar do peso de tudo "teme carregar muito corpo, muita memória, muita identidade. E se vê ameaçado constantemente pela vertigem da compulsão e pela depressão aniquiladora" (p.25), conclui Denise. E faz pensar que os apelos do mercado colocam a vida na moda. Então, envelhecer ou morrer também se comercializa, pois a imortalidade é aqui, nesta vida.
Enquanto a exposição do corpo ganha publicidade, o interior do corpo provoca náuseas. Até bem pouco tempo, doentes eram tratados em casa, bem como galinhas e porcos que além de serem tratados eram mortos em casa. Os penicos ficavam em baixo da cama. A menstruação passava pelas mãos que lavavam as toalhinhas. Sangue, fezes e urina faziam parte da rotina. "Na medida em que o corpo ganha direito de exposição, ele conquista o dever de ser civilizado e fotogênico" (p. 69), coloca a autora, no quinto ensaio. No segundo, mostra como o hospital deixa o corpo 'paciente' aos cuidados e especialidades de estranhos. Estar doente não é mais 'natural'. A dor, que no século XIX era sinônimo de coragem e persistência, deve ser banida. A vida do doente é como se não fosse vida, passa a ser um momento intervalar.
O nono ensaio polemiza a idéia que deu origem ao título do livro: o corpo-passagem. A idéia de possessão como um lugar de passagem. Aquela máxima feminista, da década de 1960, "nosso corpo nos pertence",1 que pretendia ser um contraponto da dominação do homem sobre a mulher, não só se esvazia como nos remete a pensarmos que nossos corpos não pertencem a ninguém, nem a nós mesmos. Na metáfora utilizada pela própria autora, o corpo é parodoxal à medida que não é algo pronto mas também não é um rascunho. Somos e temos um corpo sempre de passagem. Não no sentido cristão de passagem para o céu, embora para alguns também possa ser, mas no sentido de que um mesmo corpo possa assumir formas (plasticidades e comportamentos) em diferentes momentos ou em um mesmo momento. O corpo pode estar em um determinado local e em outro ao mesmo tempo, pode estar parado e em movimento... As polaridades já foram superadas pelas reflexões contemporâneas da subjetividade. E Denise Sant'Anna coloca essas questões nesse livro, embora avise dos riscos de cair na areia movediça da valorização do corpo que carrega a 'universalidade' do indivíduo, onde habita sua pátria, seus sucessos e fracassos. Os conceitos universais de Deus, Nação podem, e têm sido transferidos para a noção de indivíduo. O mercado e a publicidade mostram que a felicidade pode ser comprada, que as coisas e os bichos podem ser humanizados (nos falam, nos incitam, os animais conversam, fazem companhia...). Valores como liberdade, democracia e cidadania são definidos como conseqüências do consumo. As sutilezas provocam outras palavras, histórias, personagens e corpos, conclui a autora.
Denise não quer ser definida como uma historiadora do corpo, embora os corpos e suas relações tenham historicidade. Ela não se preocupou com as relações de gênero, talvez porque não quisesse problematizar a sexualidade, que vem sendo objeto de amplos debates acadêmicos e, seguramente, já extrapolam as questões do sexo. Afinal, se a sexualidade passou a ser objeto de estudo é porque a sociedade contemporânea está preocupada com as relações de gênero e está desconstruindo os conceitos universais de ser homem e de ser mulher. Então, podemos ler nas entrelinhas a questão do gênero que está diretamente relacionada ao corpo.
Corpos de passagem, um conjunto de ensaios, não tem um caráter propriamente acadêmico. Os textos que compõem a obra não aprofundam as discussões teóricas das categorias envolvidas: corpo, subjetividade, indivíduo, por exemplo. Muitas áreas do conhecimento foram exploradas, e o elenco de autores/as franceses apresentados é significativo se comparado a poucos autores/as americanos (James Clifford, citado pelo seu trabalho etnográfico sobre comunidades sedentárias, e Donna Haraway, citada na sua abordagem sobre tecnociência e seres pós-gênero) e outros poucos/as pesquisadores/as brasileiros/as, como Heloisa de Farias Cruz, que aparece quando o assunto é a convivência entre pessoas e animais nas cidades (mostrando a utilização dos animais de carga na São Paulo das primeiras décadas do século passado); Beatriz Sarlo, quando se fala do modo de vida - zapping - dos dias atuais; e Celia M. T. Serrano e Heloisa T. Bruhns quando o assunto é turismo, cultura e ambiente. Entre os/as autores/as em lígua francesa, aparecem: Monique Sicard, sendo referenciada quando o assunto é imagens; Peter Handke, Alain Ehrenberg e Jean-Luis Chrétier, na discussão sobre o charme da lentidão quando a contrapartida é a fatiga; Henri Béraud e Claude Fiscler, inspirando as fala sobre obesidade; Vladimir Jankélevitch, Jean-Pierre Peter, Marie-Christine Pouchelle e Timothy Lenoir discutindo sobre morte, dor, hospitais e cirurgias; Bernand Edelman, sobre a publicidade da privacidade; Marc Guillaume e Pascal Bruckner, com seus respectivos trabalhos sobre a fábrica do riso e a euforia da felicidade; Dora Valayer, com o tema turismo; Michel Serres, com a idéia de pantopia; Andre Pichot e Vandana Shiva, quando a discussão gira em torno de ciência, genética e ética; Claude Olievenstein, que aborda o envelhecimento; e Francis Ponge, que apóia a autora quando trata da visão do homem no animal.
No campo da História, o tema do corpo, envolto pela subjetividade, é preocupação recente. As evidências com o corpo, bem como a sexualidade, tornaram-se debate freqüente na sociedade e fizeram emergir as problemáticas sobre o mesmo. Os historiadores estão se perguntando sobre o corpo porque a sociedade está colocando esse tema em evidência. Não se têm muitas respostas, ou talvez não tenhamos que tê-las. Todavia, a contribuição de Denise Sant'Anna, especialmente no campo da História, é muito importante. Até mesmo para percebermos o quanto os historiadores precisam discutir tanto com a Antropologia, a Psicologia e a Filosofia quanto com a Medicina, o Direito e outras áreas que cientificizaram o corpo e as relações humanas. Nesse momento, o trabalho de arqueólogo sugerido por Foucault2 é pertinente, não para trazer os 'monumentos' mudos, mas transformá-los em documentos tomados de sentidos pelo historiador.
O corpo foi dado a ler 'naturalizado' nas manifestações sobre doença, morte e velhice no século XIX e início do século passado, ou na busca de saúde e prazer infinitos contemporâneos. Esses contrapontos da 'natureza' dos corpos, como mostra a autora, são historicizados, mesmo que as temporalidades sejam efêmeras por não ter uma datação precisa ou presa no calendário de determinada cultura. Desconstruir as formas discursivas, como faz Denise Sant'Anna, é evitar o perigo de transformar o corpo em lugar dos universais.


1 Lucila Scavone traz essa discussão do primeiro momento do movimento feminista, baseado na noção de diferença e criando uma idéia de liberdade e autonomia das mulheres, associada a uma concepçao de conhecimento e reapropriação do próprio corpo. SCAVONE, Lucila. "Anticonceptión, aborto y tecnologías conceptivas: entre la salud, la ética y los derechos". In: SCAVONE, Lucila (Org.). Género y salud reproductiva en América Larina. Cartago: Libro Universitario Regional, 1999. p. 25-31. 
2 FOUCAULT, Michel. A arquelogia do saber. 3. ed. Rio de Janeiro: Forense-Universitária, 1987.